Durante o período do Paleolítico, o Egipto era uma região bastante diferente da actual. Tal como em todo o nordeste de África, foi sujeito a várias fases de alterações climáticas, que duraram vários milhares de anos cada uma. O clima não era permanentemente seco e árido como hoje em dia, mas era antes caracterizado por fases húmidas intercaladas com períodos de aridez relativa. Ou seja, onde hoje se encontram as planícies desérticas do Sahara, existiram em alguns locais há milhares de anos lagos e regiões com vegetação significativa, alimentados por chuvas sazonais. Estes lugares eram habitados por povos pré-históricos, que deixaram muitos dos utensílios que fabricaram. Esses povos formaram as primeiras comunidades proto-sedentárias, que mais tarde seriam sujeitas a um processo único de adaptação à vida no vale do rio Nilo, a chamada "adaptação Nilótica".
O fim da última era glaciar, cerca de 10000 a.C., trouxe grandes alterações climáticas ao Norte de África. As chuvas deixaram de cair em abundância, os leitos dos rios secaram, e as planícies perderam a extensa vegetação, originando gradualmente a paisagem desértica do Sara que hoje conhecemos. Enquanto o ambiente se tornava hostil, as tribos nómadas que aí residiam foram forçadas a sair para regiões mais férteis, na periferia das planícies que iam secando. A tendência foi que essas comunidades se concentraram gradualmente mais perto do vale do rio Nilo.
Até este período essas tribos eram principalmente pastoralistas, mas já produziam farinha a partir dos grãos de gramíneas selvagens. Mas só depois de 6000 a.C. é que há as primeiras provas de agricultura no Nordeste Africano, quando o trigo e a cevada são introduzidos vindos da Ásia Ocidental. O crescimento da população nestas regiões levou à adopção da agricultura para fazer face às necessidades alimentares - as cheias regulares do rio Nilo com os seus depósitos de aluvião fertilizavam a terra. A pastorícia desenvolveu-se bastante no Egipto, com a pressão climática do VI milénio a.C. Domesticaram-se bovídeos selvagens existentes, e introduziram-se carneiros e cabras. Na região do Fayum aparecem as primeira provas de neolitização, em que as comunidades passaram a construir habitações de carácter mais permanente.
Esquema da evolução das culturas e centros urbanos pré-dinásticos no Egipto a partir de 5500 a.C.
(adaptado de Midant-Reynes, 2000: 264)
Por volta de 4500 a.C. estavam assim criados várias centros urbanos nas margens do Nilo, não se estendendo muito para além da orla do deserto. As mais importantes que se conhecem foram descobertas em locais como Badari, Hierakonpolis e Naqada (vale do Nilo), Merimda (na região do Delta). Aparecem assim agrupamentos já neolíticos e sedentários, constituindo as «culturas pré-dinásticas», pois precedem as dinastias seguintes de faraós reinantes. Estas culturas eram formadas por clãs independentes, que estabelecendo um progressivo contacto entre si, formaram as primeiras cidades fortificadas egípcias, que detinham um poder mais centralizado. Tudo indica que a cultura de Naqada ganhou poder acrescido e gradualmente foi expandindo o seu poder económico e militar sobre as outras culturas do Médio e Baixo Egipto, até conquistar e unificar todas as comunidades ao longo da bacia do rio Nilo.
Exemplos de paleta cosmética e cerâmica da cultura Naqada
(Fonte: UCL)
Durante o Período Naqada (3800-3000 a.C.) dá-se a unificação política das várias comunidades que se
agruparam para formar duas grandes unidades territoriais e
administrativas: o reino do Alto Egipto (da primeira
catarata do Nilo até Menfis), e o do Baixo
Egipto (ao norte, na região do delta), cujas capitais
eram, respectivamente, as cidades de Hierakonpolis e
Buto. As trocas comerciais já existentes entre estes dois pólos de influência ficaram bastante mais favorecidas.
Desta época remota chegaram até nós algumas inscrições com nomes
de reis pré-dinásticos, mas cuja extensão da soberania e áreas de influência são muito difíceis de averiguar. Referências em petróglifos e artefactos simples confirmam o nome de vários soberanos, entre os quais figuram Ka, Iry-Hor, Zekhen, e Escorpião, entre outros. Narmer parece
ter sido o último monarca pré-dinástico. Nesta fase merece especial relevo o rei Escorpião, o qual, segundo afirma uma teoria recente, dominava a região de Hierakonpolis e conquistou a região vizinha de Naqada. Conseguiu assim com essa vitória um poder até então inigualável, e uma área de influência muito extensa no Alto Egipto. Deixou um túmulo recheado de artefactos que ajudaram a decifrar alguns enigmas desta época tão antiga.
Petróglifos com os nomes dos reis Ka (esquerda) e Iry-Hor (centro). Inscrição
em cerâmica com o nome do rei Escorpião (direita). Período 3400-3150 a.C.
(Fontes: Raffaele, 2003; Wikipedia)
Característicos do fim da fase pré-dinástica são os artefactos em cerâmica pintada e ondulada, e as paletas cosméticas. Nestes objectos aparecem os primeiros sinais da escrita hieroglífica que foi inventada neste período. Até aqui, os primeiros metais utlizados eram o cobre e o ouro, porque podiam ser encontrados em estado natural e eram suficientemente suaves para serem martelados e cortados com pedras. Durante este período a metalurgia do bronze expandiu-se no Egipto; muito mais duro que o cobre puro, estava melhor adaptado às ferramentas e armas. Todas estas inovações tecnológicas favoreceram a expansão da população, e a criação de verdadeiras cidades.
Os soberanos que governaram as primeiras cidades autónomas pertencem à chamada Dinastia «0», assim chamada por anteceder o sistema de 30 dinastias criadas pelo grego Manetho. Os gregos consideravam que estes reis provinham de uma cidade lendária chamada This, e por isso eles também são conhecidos por reis tinitas. No princípio do século XX, o egiptólogo Flinders Petrie defendeu a tese de que os primeiros reis egípcios eram descendentes de invasores da Mesopotâmia ou de outra região a leste. Esta era a tese da "raça dinástica" - de que o Egipto teria sido invadido por grupos do exterior que originaram os faraós - mas que hoje está totalmente posta de lado. A cultura criada pelas comunidades pré-dinásticas demonstrou um desenvolvimento indígena notável, que se tornou a raiz da civilização egípcia clássica. Sem dúvida, os feitos alcançados pela primeira dinastia de faraós resultaram de um longo período de desenvolvimento cultural e político, e não de uma nova ordem radical imposta a partir de fora. Os três milénios seguintes demonstraram que a influência cultural de civilizações exteriores ao vale do Nilo foi sempre bastante limitada.